O personagem de Suassuna da vida real

 - Posso entrar, Dr.?

- Pode sim, fica à vontade.

Enquanto puxo a cadeira para o assistido se sentar, percebo que ele é uma pessoa mais pobre do que o usual. Uma pessoa em situação de rua, talvez. Com uma camisa de São Jorge com o seu cavalo.

- Prazer, sou o Gabriel, oficial da Defensoria, vou fazer seu atendimento hoje.

- Tinha que ser um anjo para me ajudar! Eu me chamo Marcus.

E ele foi me contando o seu problema. Queria renovar a sua carteira de PCD, para continuar tendo acesso aos benefícios do BPC-LOAS. Decidi que faria um ofício para o órgão competente, explicando a sua situação. Mas a sua voz e narrativa eram muito cativantes. Não pude deixar de perguntar:

- Sr. Marcus, o sr. é da onde? O seu sotaque me lembra muito o do Ariano Suassuna.

Ele sorriu.

- Ô, Gabriel, eu conheço o Ariano. Ele disse que eu poderia ser um personagem de uma de suas crônicas. Deixa eu lhe contar...

E ele começou a contar a sua história. Saiu de sua terra, no Ceará, para chegar em Aparecida. O motivo? Um acidente de seu irmão, que o deixou paraplégico. Após fazer uma rifa, ele conseguiu comprar um cavalo. Conforme ia passando nas cidades, ia conseguindo algum auxílio dos fazendeiros - comida para ele e para o animal, troca de ferradura, e, claro, surfar pelas praias que passava.

Após uma longa e divertida história (poderia tranquilamente ser um livro inteiro!), passando por Recife e um conflito com uma associação de animais, em que foi auxiliado por Ariano e seus amigos advogados; por Caraíva e suas aventuras com indígenas, estrangeiros e playboys; pelas mais belas praias do Espírito Santo e um de seus amores; com tudo isso, eu mal vi o tempo passar.

Enfim, nosso herói chegou em Aparecida. Só que, ao contrário de outras cidades, ele não pôde descansar. "Já veio a polícia me tirar da rua... disse que eu tinha que me mandar dali". Deixou a cela do cavalo, como símbolo de seu esforço - mas não de agradecimento, porque foi mal tratado, e seu irmão não foi curado. Dali, foi para São Paulo. Começou a usar o crack, o dragão dos nossos tempos.

Agora, ele dizia estar se recompondo; estava trabalhando e morando em um albergue da prefeitura. Como pode? Um invisível pela sociedade, ter tantas histórias, tanta vida dentro de si? Uma pessoa culta, inteligente, com várias referências culturais e artísticas, que acabou nas ruas. Em São Paulo, o acabamento da história é no concreto.

Ele queria falar mais, mas tenho de interrompê-lo, pois chegou outro assistido. Redijo o ofício, rapidamente, e lhe entrego uma via.

- Deus lhe pague! Muito agradecido, e desculpe a amolação.

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