Por um direito a ser infeliz
John, o protagonista de Admirável Mundo Novo, não se enquadra em nenhum dos dois mundos - tanto o tecnológico e "progressista", quanto o selvagem e "retrógrado". Era assim que eu, como adolescente, me sentia em relação à sociedade. Muito careta para a sexualidade, muito promíscuo para o celibato. Crítico ao totalitarismo, mas também à anarquia. Certo de que existe um Deus, mas receoso quanto às religiões.
O objetivo principal dessa sociedade distópica é a felicidade. Ou, melhor dizendo, que os indivíduos nunca sintam tristeza. Para isso, as pessoas não podem ter qualquer tempo de introspecção. Qualquer tempo livre deve ser ocupado, pelas mais diversas atividades: Cinema Sensível, Soma, Jogos Sexuais.
O quão distante estamos disso? As pessoas mais jovens não conseguem ficar sozinhas com os seus pensamentos. Para comer? Um vídeo para passar o tempo. Esperar o ônibus? Um podcast. Fazendo exercícios na academia? Uma música no fone de ouvido. Na busca constante por dopamina, as atividades comuns já não nos satisfazem. É preciso sempre sendo estimulado, sempre. E nessa busca pela felicidade imediata, contraditoriamente, as pessoas nunca foram tão infelizes.
Por isso, o direito à felicidade é uma farsa. Primeiro: porque a busca pela felicidade leva à infelicidade. Só se pode ser feliz, à longo prazo, com o equilíbrio de momentos de tristeza, de tédio, de atividades não prazerosas. Segundo: porque a felicidade, por si só, de nada vale. Os grandes feitos da humanidade, da ciência e da literatura não surgiram pela felicidade. Pelo contrário, foi preciso uma boa dose de tristeza, transformada em pulsão.
É por isso que Shakespeare diz: "But I don't want comfort. I want God, I want poetry, I want real danger, I want freedom, I want goodness. I want sin."

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